Afinal, quando a traição caracteriza uma relação abusiva?

Relações abusivas costumam ser marcadas por diferentes tipos violência: agressões físicas, mentiras, abuso da confiança. No entanto, outra característica que também costuma fazer parte desse tipo de envolvimento é a traição.

Segundo especialistas, a traição é uma terrível forma de abuso. Ela desconstrói vários pilares emocionais importantes. A infidelidade é uma marca das pessoas abusivas.

Nos últimos dias, o tema preferido das redes sociais foi o rompimento da relação entre a empresária Mayra Cardi com o ator Arthur Aguiar.

Ela publicou um relato nas redes sociais em que faz uma série de acusações ao ex-marido, Arthur Aguiar. Nele, Mayra afirma ter vivido um relacionamento abusivo com o pai de sua filha e alega ter sido traída diversas vezes durante o casamento.

Arthur, por sua vez, gravou um vídeo em que admitiu a infidelidade, mas rechaçou a acusação de abuso. Na resposta da publicação, já deletada pelo artista, seguidores não conseguiram entrar em consenso sobre qual dos dois tem razão.

Mayra Cardi e Arthur Aguiar quando ainda formavam um casal feliz


De acordo com a psicóloga Adriana Souza, a traição pode sim ser considerada uma forma de agressão ao relacionamento, e por isso configura um abuso. “A relação monogâmica é um combinado entre duas pessoas e quebrar esse pacto é uma irresponsabilidade afetiva”, opina a profissional.

Ela explica que a traição deve ser considerada uma ferramenta de abuso, pois impacta diretamente na autoestima do outro.

Geralmente a infidelidade leva ao abuso psicológico e não ocorre de forma isolada. Vem acompanhada de manipulação, mentiras que acabam atingindo até pessoas que não fazem parte da relação como familiares e amigos.

A também psicóloga Pâmela Magalhães, convidada por Mayra a esclarecer o assunto em uma live transmitida em seu instagram, valida a opinião da colega. “Existe o abuso invisível, silêncios ensurdecedores, jogos emocionais e atitudes destrutivas que não vão aparecer como um soco, um tapa, mas que são extremamente nocivos”, pontua.

Apenas casais héteros vivenciam relações abusivas?


As mulheres não são as únicas vítimas de relacionamentos abusivos. Eles acontecem com mulheres, homens, pessoas hetero ou homossexuais. Relacionamentos abusivos podem acontecer entre pessoas de todos os gêneros. 

Recentemente, um dos empresários mais influentes e poderosos  do meio artístico descobriu que estava vivendo um relacionamento abusivo.

Ney Alves, que é responsável pelo sucesso na carreira de muitos artistas da televisão,  até o mês passado mantinha um relacionamento de aproximadamente cinco anos com o modelo e também funcionário público, Lucas Corrêa Maia.

Segundo a coluna do jornalista Nelson Rubens,  ao descobrir que era vítima das traições de Lucas, o empresário teria questionado o rapaz. Pressionado, ele partiu para a agressão física numa tentativa de homicídio, quase chegando às vias de fato por enforcamento, deixando o empresário desacordado no chão de seu próprio apartamento. 

Ao ser procurado por nossa reportagem, o Ney negou a versão apresentada, contestando as informações obtidas através de fonte segura, na tentativa frustrada de proteger a imagem do rapaz.

Segundo especialistas, E normal vermos situações em que o abusador sinta-se desesperado quando é confrontado com a realidade. Alguns partem para crises de choro. Criam situações fantasiosas para justificar seu atos abusivos. Outros se tornam agressivos e partem para a violência física, diante da impotência de justificar suas traições.

Assim como no caso de Mayra como o de Ney, é normal que num primeiro instante, a vítima do abuso ou de violência tente “abafar o caso” na intenção de preservar a reputação do seu abusador diante da sociedade, familiares e amigos.

Traidores, abusadores e manipuladores


Pela experiência no atendimento de casais, Adriana acredita que, os fatos narrados por Mayra para justificar a queixa de abuso psicológico – como o fato do ex-companheiro chorar, pedir desculpas e fazer promessas de que ia mudar sempre que um caso vinha à tona – apontam, sim, para uma relação abusiva e psicopata.

“O relato de Mayra fala de traição, mas também de chantagem emocional e manipulação. É um conjunto de situações”, argumenta a especialista.

A profissional destaca que muitas pessoas acabam permanecendo nessa situação porque, ao se dar conta do que estão vivendo, já estão emocionalmente abalados.

“Vi muitos comentários, pessoas dizendo que ‘ela aceitou’, que ‘ela quis’. É muito complicado dizer isso em um contexto de adoecimento emocional. Às vezes, a pessoa viveu anos tendo sua autonomia emocional destruída pelo parceiro e, por isso, vive em um ciclo de decisões destrutivas”, entende Adriana.

Pessoas que se encontram nessa situação, devem procurar ajuda de um especialista. “Um psicólogo irá ajudar a compreender sua responsabilidade pessoal diante desses fatos e retomar a autoestima, para que o padrão não se repita em relações futuras”, aconselha Adriana.

Réveillon na Paulista é cancelado pela Prefeitura de São Paulo

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), anunciou nesta sexta-feira (17) que a festa de Réveillon na Avenida Paulista não acontecerá neste ano. A decisão foi tomada por conta do risco de transmissão do coronavírus em ambientes de grande aglomeração.

“Hoje, a gente anuncia que nós também não teremos o Réveillon na Paulista nessa virada de ano de 2020 para 2021. Tanto a prefeitura, quanto o governo do estado de São Paulo, os técnicos da vigilância sanitária e do governo do estado entendem [que é] muito temerário nós organizarmos um evento para um milhão de pessoas na Avenida Paulista para dezembro deste ano”, disse.

“Com a temeridade de realizar um evento para 1 milhão de pessoas e o impacto que isso possa ter na área da saúde, é bem maior do que qualquer prejuízo econômico que a cidade possa ter nesse instante. Então, a área da saúde foi preponderante para que a gente tomasse essa decisão. Não há nenhuma possibilidade de se pensar nesse momento numa festa que reúne 1 milhão de pessoas. Claro que o réveillon na paulista ajuda o setor de turismo, mas é um evento muito mais para os paulistanos do que para os turistas”, afirmou ele.

A decisão já era esperada. Na última quarta-feira (15), João Doria já tinha mencionado que megaeventos como réveillon e carnaval não deverão ser celebrados diante da pandemia do coronavírus até a criação de uma vacina contra a Covid-19.

Morre José Paulo de Andrade, ícone do rádio paulistano

Faleceu nesta sexta-feira (17), às 6h, o jornalista e apresentador José Paulo de Andrade, 78, ícone do rádio paulistano em várias gerações. Ele apresentava na Rádio Bandeirantes (RB) os programas “O Pulo do Gato“, desde 1973, e “Jornal da Bandeirantes Gente“, desde 1978. Este último surgiu após a morte de Vicente Leporace, no mesmo ano. O trio inicial do programa era formado, além de Zé Paulo, pelos jornalistas Salomão Esper, 90, e Joelmir Betting (falecido em 2012).

A informação da morte de José Paulo de Andrade, ocorrida em decorrência da Covid-19 (ele estava internado há duas semanas no Hospital Albert Einstein) foi noticiada na RB às 8h em ponto, hora em que o Jornal Gente vai ao ar há 41 anos. “É com muita tristeza que comunicamos a morte do nosso colega e amigo José Paulo de Andrade. O Zé Paulo tinha 60 anos de rádio, 57 de Rádio Bandeirantes. Nosso companheiro no ar e fora dele. É com muita tristeza que comunicamos o falecimento dele. Hoje será um dia muito difícil para a família Bandeirantes”, disse Thays Freitas, diretora da emissora.

Zé Paulo, que era casado e tinha dois filhos (e uma neta), começou a carreira em 1960, aos dezoito anos, como rádio escuta na Rádio América. Aos 21, começou na Rádio Bandeirantes como locutor esportivo e repórter, onde permaneceu por quatorze anos. Em 1969, esteve no campo do Maracanã reportando o jogo do Santos contra o Vasco, que culminou com o milésimo gol de Pelé.

Sua história foi contada em 2018 no livro “Ninguém segura esse gato”, escrito pelo jornalista Cláudio Junqueira. Apaixonado pelo São Paulo FC, era um dos maiores formadores de opinião do Brasil.

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Em 2009, Vejinha fez uma pesquisa com 1 000 paulistanos, que elegeram Zé Paulo como “a cara de São Paulo”.

<span class=”hidden”>–</span>Reprodução/Veja SP

Sobre a música “Acorda, São Paulo, do seu sono justo, é hora do Pulo do Gato!”, diariamente às 5h em ponto, ainda não há informação de continuação ou não da atração, atualmente apresentada pela jornalista Silvânia Alves.

 

 

Muro pedido em Paraisópolis evidencia rejeição a pobres em área nobre

Durou pouco mais de duas semanas a ideia dos moradores do Morumbi, vizinhos à favela de Paraisópolis, de construir um muro de 3 metros de altura para separar o futuro parque municipal de suas casas. No último dia 27 de junho, a Associação dos Amigos do Jardim Vitória Régia, que representa 250 residências, enviou o pedido à Secretaria do Verde, alegando que a “pequena área recreativa”, de 60 000 metros quadrados (pouco maior que o Parque Trianon), “poderá concentrar um grande público, dada à alta densidade da comunidade”. Além disso, no documento, os vizinhos da maior favela de São Paulo, com 100 0000 habitantes, não teriam mais acesso a um dos dois portões do local. A solicitação foi rejeitada no último dia 13 e o parque deverá ser entregue em outubro deste ano (o projeto foi lançado em 2008, mas só começou no ano passado) sem muros e com duas entradas.

A solicitação da associação, que também queria proibir piqueniques no futuro espaço, pegou a principal liderança de Paraisópolis de surpresa. “Achei estranho. Eles sempre foram nossos principais parceiros no Morumbi e farão parte do conselho do parque. Recentemente fizeram uma grande arrecadação de alimentos e estiveram conosco na briga em prol do monotrilho, que nunca saiu”, afirma Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores. Procurada, a diretora da Associação Vitória Régia, Claudia Leme, que assina o ofício enviado à prefeitura, não quis dar entrevista. A rejeição à aproximação de moradores em áreas nobres (ou de proibir “novidades” nas vizinhanças) cunhou a expressão em inglês not in my backyard, não no meu quintal, que pode ser observada em várias situações mundo afora. Em 2010, ao reclamar da construção de uma estação de metrô em Higienópolis, uma moradora afirmou que a obra levaria mendigos e drogados, “uma gente diferenciada”, para o arredor. Dias depois, em protesto, um “churrasco da gente diferenciada” levou centenas de pessoas à avenida que dá nome ao bairro.

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SomarDivulgação
DivulgaçãoDivulgação

A dez quilômetros dali, na Vila Leopoldina, a construção de um conjunto habitacional com mais de 500 moradias populares colocou mais uma vez o preconceito em evidência. O projeto prevê a extinção de duas favelas ao lado da Ceagesp (com a remoção de seus moradores) e a reforma de um conjunto Cingapura, mas esbarra no aceite dos novos vizinhos. Em 2018, reportagem da Vejinha mostrou as queixas. “Se viesse só o rapaz que trabalha e come marmita, não haveria problema. A questão é o que vem junto”, disse um deles. O projeto está parado há dois anos na Câmara. Para quinta-feira (16), a vereadora Soninha Francine (Cidadania) convocou uma audiência pública para tentar dar andamento à proposta. “Mesmo diante de um interesse egoísta, da valorização do seu imóvel, como essas pessoas podem rejeitar um projeto como esse?”, questiona a parlamentar.

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220 moradias populares em Maresias foram canceladas após reclamação da associação local

Na Bela Vista, outro empreendimento popular deixou moradores contrários. Nesse caso, dizem, a questão não é social, mas geológica. “Não é que somos discriminatórios e não queremos conviver com um projeto social. Se esse tipo de empreendimento for construído ruirá as fundações dos nosso prédios, é um problema estrutural”, afirma o ex-deputado petista Adriano Diogo, morador do condomínio Praça dos Franceses. O projeto da Canopus Construtora, elaborado pelo escritório Königsberger Vannucchi Arquitetura, prevê seis prédios com nove andares cada um. O condomínio de luxo, que se opõe, tem torres de 27 andares e está em uma cota a 30 metros de altura em relação à rua de baixo, onde sairá o projeto mais econômico. A construtora afirmou que, como o projeto está em tramitação na prefeitura, não comentaria o caso.

Croqui de empreendimento na Vila Leopoldina, onde hoje há um terreno da prefeitura: dois anos parado na CâmaraDivulgação/Divulgação

No Litoral Norte paulista, a gritaria antipovo surtiu efeito. Previstas para serem construídas a 500 metros da badalada Praia de Maresias, em São Sebastião, cerca de 220 moradias populares viraram pó após a queixa da associação local. O anúncio levou a uma mobilização da Sociedade Amigos da Praia de Maresias (Somar). Em ofício para a prefeitura, os membros questionavam a falta de saneamento na região, temores de uma piora na segurança e desvalorização imobiliária. “Hoje esses grandes núcleos habitacionais acabam sendo dominados por poderes paralelos”, afirma o ex-presidente da Somar, Eliseu Arantes, que estava à frente da empreitada em janeiro, quando uma reunião do grupo contou até com a presença do secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Fabio Wajngarten. “São Sebastião precisa de moradias populares? Sim. Mas não sei se em Maresias, pois vivemos do turismo”, argumenta. A licitação foi cancelada em fevereiro. Procurada, a prefeitura informou que não há nova data para o lançamento. O quintal deles foi salvo.

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Publicado em VEJA SÃO PAULO de 22 de julho de 2020, edição nº 2696.

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“Bolsonaro se saiu melhor que o Doria na pandemia”, afirma Filipe Sabará

Como foi o processo para a escolha do candidato do Novo na capital?

Foram 77 candidatos e três fases, durante seis meses. Em uma delas, conversei com uma empresa de consultoria contratada pelo partido. Expliquei minha experiência na prefeitura, como secretário de Desenvolvimento Social, e falei também das frustrações por causa dos programas descontinuados pelo Bruno Covas.

Quais programas foram esses?

Os Centros Temporários de Acolhimento (CTAs) e o Trabalho Novo, que empregava, em parceria com empresas privadas, moradores em situação de rua. Criamos também um programa de habitação popular, mas só conseguimos entregar um prédio, na Rua Asdrúbal do Nascimento, no centro. Depois que o João Doria saiu, em abril de 2018, o Bruno começou a criar dificuldades para mim. Eu tentava marcar reuniões com empresas dispostas a ajudar, mas ele nunca tinha agenda. Nem os meus telefonemas ele atendia.

Quais projetos serão prioridade na sua gestão?

Vou resgatar a jornada da autonomia, um guarda-chuva com vários programas sociais. Os CTAs e o Trabalho Novo são dois deles. Outra prioridade será reduzir as secretarias para até dez e escolher pessoas técnicas para trabalhar comigo. Faremos processos seletivos para secretários e subprefeitos, acabando com as indicações de vereadores.

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Vários prefeitos prometeram acabar com a influência dos vereadores no Executivo e não conseguiram. Por que com o senhor será diferente?

Se funcionasse do jeito que está, não estaríamos com esses problemas da cidade. São Paulo está um caos. Vamos mudar para um sistema que funcione. Como secretário, cansei de receber pressão de vereadores querendo indicar pessoas à minha pasta. Até ameaças eu recebi.

Que tipo de ameaças? Chegou a denunciar? Quem o pressionou?

Prefiro não dar nomes, mas foram quatro vereadores que me ameaçaram. Também não denunciei ninguém. Eles falavam que se queixariam ao prefeito e que iriam me mostrar como as coisas funcionam na gestão municipal. Não dei ouvidos.

As áreas de mananciais são objeto de investida do crime organizado há décadas. Quais seus projetos de moradia nessas áreas?

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Para estancar isso tem de matar o mal pela raiz, porém não dá para tirar as pessoas a bala. A fila da habitação é enorme, mas com os juros baixos tem muito fundo de investimento que pode trabalhar uma nova forma de habitação popular. Do jeito que está a fila será zerada em mais de um século.

Quais seus projetos para a reformulação do centro, uma promessa eterna de candidatos?

O centro tem 40 000 habitações que poderiam ser destinadas a pessoas de baixa renda, mas muitos prédios possuem tombamentos que não fazem o menor sentido. Há edifícios caindo aos pedaços que não podem ser reformados por causa de uma parede ou de um elevador tombado que não funciona. Os burocratas do Conpresp e do Condephaat (órgãos de proteção do patrimônio) precisam ouvir histórias de quem mora longe do centro.

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O senhor aparece ao lado do então prefeito João Doria em foto após a ocupação da PM na Cracolândia, em 2017. O que deu errado ali e o que o senhor, como prefeito, faria?

A Cracolândia precisa ser uma ação integrada, não de surpresa, como ocorreu. Eu não tinha informação de que iria acontecer. Foi tudo acertado entre prefeito e governador. Para resolver a situação precisa haver várias frentes. Polícia é importante, mas o trabalho é o grande remédio para o dependente químico.

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Como Fernando Haddad fez com o programa De Braços Abertos?

Ele deu uma bolsa. A bolsa crack. O programa consistiu na contratação de hotéis na Cracolândia. Não era um programa de trabalho e renda. A pessoa recebia dinheiro, ia para os hotéis e comprava a droga.

O senhor foi acusado de fazer de tudo para ocupar o posto da então secretária Soninha Francine, em 2017.

Não tenho nada contra ela, mas a Soninha é visionária e idealiza muito. Vive no campo das ideias. É uma ótima VJ, jornalista e parlamentar. Eu assistia a ela na MTV. Agora, como gestora, não conseguia pôr ideias em prática.

“O centro tem edifícios caindo aos pedaços que não podem ser reformados por causa de uma parede ou de um elevador tombado que não funciona”

Como avalia o comentário da primeira-dama, Bia Doria, sobre não dar comida aos moradores de rua?

Faltou a ela concluir o raciocínio. É claro que é melhor a pessoa sair da rua, mas para isso a sociedade e o governo precisam se envolver. A melhor forma de se conectar com os moradores de rua é por meio de roupas e comida. Tem de fazer isso e oferecer uma saída.

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Recentemente, a XP Investimentos anunciou que pretende trocar São Paulo por São Roque. Qual o impacto disso para a cidade?

Uma vergonha que ficará na conta do prefeito Bruno Covas. A prefeitura não sabe conversar com os setores, não entende de negócios. É preciso melhorar o ambiente para essas empresas. A cidade é protagonista em negócios e empregos, não o contrário.

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O senhor foi secretário do governador João Doria duas vezes. Como será a relação com o padrinho político nas eleições, já que ele apoiará Bruno Covas?

Minha relação com ele era técnica. Não sou social democrata, sou liberal. Doria me prometeu que seria um liberal com foco em emprego, mas deixou essa atuação de lado, e meu vínculo com ele acabou rompido.

Qual sua opinião sobre os embates entre Bolsonaro e o governador paulista durante a pandemia?

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Doria rivalizou de forma errada. O (Romeu) Zema (governador de Minas pelo Novo) é um exemplo de estadista que pensou em seu estado. O Doria pensou apenas em política. Ele chamou o presidente de “vírus”. Sua atuação se resumiu a isso. Comprou respiradores que não chegaram e teve resultados técnicos fracos e questionáveis. O Bolsonaro, apesar de algumas atitudes questionáveis, se saiu melhor que o Doria no combate à pandemia.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 22 de julho de 2020, edição nº 2696.

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“Tenho o amor do meu filho, da minha ex, dos meus pais e do Pedro”

“Há 28 anos, uma amiga me apresentou o Pedro em uma festa de aniversário. Ele sabia que eu era artista, cantava, mas não que me apresentava como transformista na noite paulistana. Na mesma festa, o convidei para ver meu show no dia seguinte. Quando ele chegou, foi até meu camarim. Abriu a porta, eu estava de costas. Assim que me virei, a cara dele se transformou. Imagina: estava de peruca, saia de onça, bota preta na altura do joelho. Pensei naquele momento que o tinha perdido, como já aconteceu antes com outros garotos. Mas com ele foi diferente.

Reservei uma mesa especial para ele assistir à minha performance. Depois, me desmontei, tirei a maquiagem e voltamos à vida normal. Pedro sempre me viu nos dois mundos e, desde o começo, soube diferenciar. Quando começamos a namorar, alguns amigos dele — que hoje são meus também — perguntaram: ‘Pedro, mas você vai namorar um travesti?’. Ele explicou que eu era apenas um artista que se monta de mulher. É o meu trabalho, que ele respeita e apoia. Mesmo odiando Carnaval, por exemplo, ele ajuda a me arrumar.

Quatro anos antes, na mesma boate a que levei Pedro, conheci minha ex-mulher, a Sonia. Na época, aos 26 anos, nunca tinha tido relação com mulheres. Mas começou a rolar uma música lenta e pintou um clima. Depois de três meses, fomos morar juntos. Mais dois anos e mudamos para Porto Seguro, na Bahia. Eu trabalhava na recepção de um hotel, era uma rotina burocrática de gravata e paletó, para a qual eu simplesmente não fui feito. Lá era cheio de mato, acordava com as galinhas.

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No início do relacionamento, em 1992: afeto quebrou as barreiras do preconceitoArquivo Pessoal/Divulgação

Nasci no Ceará, mas moro em São Paulo desde 1981. Sou bicho de cidade, preciso de barulho e de gente, não aguentei. Nunca tinha pensado em ser pai, mas a Sonia ficou grávida e eu abracei a oportunidade. A gestação foi considerada de risco. Só tinha uma médica na cidade, não havia infraestrutura. Não arriscaríamos, então voltamos para São Paulo. Depois de dois anos do nascimento de Tainan, nos separamos. Ela queria aquela vida ‘paz e amor’ e eu não ia voltar de jeito nenhum. Tanto a união quanto a separação aconteceram naturalmente e sempre mantivemos contato. Hoje ela gosta demais do Pedro, são até amigos!

Minha mãe teve a pior reação à minha história de amor. Quando comecei a namorar o Pedro, perguntavam-me o que estava fazendo, já que antes gostava de mulher. E desde quando a gente manda no coração? Ser gay é bacana até acontecer no seu quintal. Quando assumi para a minha família foi um grande choque, queriam me levar ao psicólogo, falavam que eu era doente e tinha de me curar. Era a vergonha da família. Perguntaram até o que iria dizer para meu filho quando crescesse.

Tainan é músico, toca na banda Monocelha, e eu já participei todo montado em seus clipes. Quando tinha apenas 9 anos, ele descobriu meu relacionamento por meio de uma entrevista sobre pais gays. Quando voltei para casa, ele me chamou para conversar e disse: ‘Pai, li a matéria, sei que você é gay e gosto de você mesmo assim’. Hoje, com 31 anos, ele diz que nunca viu o ‘tio Pedrinho’ me dar um beijo. É porque Pedro e eu somos reservados. Tainan me deu uma luz chamada Bento, meu netinho de 1 ano, e faz questão de chamar o Pedro de avô também.

Pedro cuida tão bem de mim. Morar juntos é uma delícia. Tem talento na cozinha, engordo por culpa dele. Somos parceiros, cúmplices. Ele é tímido, eu falo demais. Gosto de sair para dançar, mas ele não tem paciência para o bate-estaca. Daí ele se propõe a me deixar na porta da boate. Isso me traz segurança e é assim que tem de ser, né? Amamos viajar e tomar uma cervejinha. Um dia alugamos um quarto de hotel à beira- mar em Fortaleza e fomos à praia com duas amigas. Vimos um cara vendendo ostras e decidimos comer. Só comi duas e o vendedor, que estava cortando a concha, disse para uma das meninas: ‘Seu marido não gosta muito de ostra?’. Ela respondeu: ‘Ele não é meu marido. É marido do Pedro. Ela que é minha mulher’. O homem se assustou e acabou fazendo um corte no próprio dedo. Não desejo para ninguém enfrentar o preconceito que enfrentamos. Eu me amo como sou. No fim de tudo, não perdi o amor do meu filho e dos meus pais, nem a amizade da Sonia. Ainda ganhei uma família, que é a do Pedro.”

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Publicado em VEJA SÃO PAULO de 22 de julho de 2020, edição nº 2696.

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Fotógrafo cria tours virtuais e consegue equilibrar renda na pandemia

Reinventar-se em tempos de crise é um talento, e no momento em que o fotógrafo João Neto Pires, 37, viu a agenda de trabalho, antes recheada de festas de 15 anos, ensaios, casamentos e eventos esportivos, totalmente vazia por causa da pandemia, decidiu dar uma nova função à fotografia e empreender.

Por meio de tours virtuais em 360 graus, tecnologia usada em exibições on-line dentro de museus ou na visitação de imóveis sem sair de casa, ele lançou um projeto especial para escolas de São Paulo. Os alunos de 11 a 13 anos da Tots & Teens, em Santo Amaro, por exemplo, embarcam em uma caça ao tesouro digital na Grécia Antiga. Objetos da época histórica substituem, por meio do Photoshop, elementos da escola: uma pilastra grega está no lugar da coluna do edifício e vasos comuns disfarçam-se de cântaros. Ao clicar na imagem, a explicação sobre a peça aparece na tela. “Acho que ainda não exploramos todo o potencial do projeto”, conta Duncan Randall, diretor do colégio de ensino bilíngue. Ele também explica que a ferramenta está sendo utilizada para mostrar o espaço às famílias dos futuros estudantes, principalmente as que moram em outros países e planejam se mudar para São Paulo. “Temos 32 nacionalidades na escola. A maioria são filhos de funcionários de multinacionais que ficam na China e na Coreia do Sul, que receberam propostas de trabalho no Brasil e não fazem chamada de vídeo por causa do fuso horário”, complementa.

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DivulgaçãoDivulgação
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Pires explica que há duas formas de fazer o tour virtual. A primeira é através de uma câmera com duas lentes. Cada uma tira fotos em 180 graus, mas o resultado não traz a melhor qualidade de imagem. Por isso em seu empreendimento ele adotou uma outra, feita com uma câmera fixada em uma cabeça panorâmica num tripé que gira 360 graus. Quatro fotos são necessárias para criar a imagem completa do espaço, unidas por um software no computador. A qualidade do método possibilita ao aluno aproximar a imagem na hora do jogo. A última parte do processo é juntar todas as salas do tour, permitindo navegar entre ambientes com um clique. “Troquei assistir a filmes e séries por tutoriais de como fazer a técnica no YouTube, mas foi tão prazeroso quanto”, diz Pires, sobre sua nova fase profissional. Ele também fez um investimento em torno de 4 000 reais para começar o negócio, com a compra da cabeça e da lente panorâmica da câmera, sem contar com o equipamento que já possuía.

Para os alunos de até 6 anos da Bebê & Companhia, a mesma lógica do tour se aplica à brincadeira de esconde-esconde virtual. Pela tela do computador, os pequenos entram na brinquedoteca e precisam procurar pelos professores e funcionários atrás de portas, dentro de caixas ou embaixo de mesas. Assim como ocorreu com as peças gregas, o fotógrafo encaixou no ambiente as fotos que os educadores enviaram, fazendo poses engraçadas. “Até a secretária introvertida que detesta fotografia entrou no jogo, escondida no armário com a mãozinha de fora”, conta. Os dois filhos de João, Arthur, 2, e Nicolas, 5, estão matriculados na escolinha e, por não ter condições de pagar a mensalidade integral durante a pandemia, ele ofereceu o projeto como moeda de troca pela gratuidade da parcela.

Um tour simples, com cinco fotos em 360 graus e cinco interações, sai em torno de 1 300 reais, dependendo do ambiente. As mesmas fotografias podem ser reaproveitadas para novos jogos, com valor reduzido. O projeto fez com que a renda mensal do fotógrafo se igualasse à da época em que ele vivia de eventos. “Por ser ensino infantil, nunca trabalhamos com tecnologia. Lidamos com afetividade, toque e contato da natureza”, explica a diretora pedagógica da Bebê & Companhia, Renata Telles. Mas os pequenos sentiam saudade dos funcionários, então logo a escola abriu espaço para o fotógrafo validar a invenção. “É instrumento que aproxima os professores das crianças”, diz. “Foi uma surpresa para eles reverem um lugar pelo qual sentem carinho. Não houve nenhum retorno negativo”, concorda Duncan. Uma das alunas, Rafaela, 5, ficou animada com o passatempo. “Ela queria que eu conhecesse a escola e indicava onde brincava e guardava as atividades”, relata a mãe, Simone Reina. Responsável também pelos cuidados de um bebê de 8 meses, Simone conta que as atividades são a pausa de que precisa para focar no trabalho.

“Quando criei o jogo, eu me inspirei nos antigos almanacões, mas tinha de ser algo que as crianças conseguissem fazer sozinhas e não deixassem os pais malucos no home office”, diz Pires. As instruções são recebidas por e-mail em um PDF com um link que redireciona à plataforma, sem precisar digitar nada. “Imagina trabalhar com uma criança que te chama a todo o momento? Os pais contam que, a partir de 3 anos, os filhos conseguem acessar as atividades sem a ajuda deles”, explica Renata.

Com o plano de as escolas funcionarem parte de forma presencial, parte virtual, Pires quer trabalhar com o recurso no pós-pandemia e pretende aplicar a interatividade no mercado imobiliário e em pet shops, para estimular a adoção de animais. O negócio veio mesmo para ficar.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 22 de julho de 2020, edição nº 2696.

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Startups antenadas com o “novo normal” captam milhões em investimentos

A baixo do radar do catastrófico noticiário econômico, um grupo de startups (empresas tecnológicas e novatas) de São Paulo recebeu investimentos milionários, feitos por fundos privados, durante a quarentena provocada pelo coronavírus. Elas estão ligadas às tendências do mundo pós-pandemia, como o trabalho remoto, a telemedicina e o delivery. “A única certeza que temos sobre essa crise é de que ela vai passar”, diz Marcos Toledo, sócio do fundo Canary, que participou de catorze investimentos desde março, dos quais dez na capital. “No geral, o período foi ruim para o mercado de startups, com investidores de ‘freio puxado’. Mas a pandemia acelerou transformações de consumo e trabalho que beneficiam alguns negócios”, ele explica. Para esses empreendedores, o clichê de que “toda crise é uma oportunidade” funcionou.

DIVÃ DA ERA DIGITAL

Rui (de preto) e o sócio José Simões: em alta na criseZenklub Diola/Divulgação

O novo coronavírus tem levado as profissões que dependem de encontros presenciais a se reinventar. “Em março, da noite para o dia, o número de psicólogos e psiquiatras cadastrados na nossa plataforma se multiplicou por dez”, conta Rui Brandão, 30. O Zenklub, um serviço de saúde mental baseado em videochamadas, agora tem mais de 20 000 profissionais ativos. O número de consultas mensais saltou de 5 000 em janeiro para 30 000 em junho. As empresas também correram para contratar a startup e oferecê-la como um benefício aos funcionários. “Tínhamos dez clientes corporativos, agora são mais de 100. Antes, eram apenas negócios ‘moderninhos’, mas passamos a atender marcas como Votorantim, Tecnisa e Natura”, diz o empresário. Com o crescimento, a startup paulistana recebeu um investimento de 16,5 milhões de reais em maio. “Queremos criar a primeira marca de referência do mercado de psicologia”, ele aposta.

O NOVO DELIVERY

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Em um passado remoto, os restaurantes faziam o próprio delivery. Veio, então, a revolução dos aplicativos, como o Rappi e o iFood. Com eles, surgiram diversas dark kitchens pela cidade, cozinhas feitas para atender somente às entregas. Essa saga ganhou mais um capítulo. Em novembro, nasceu em São Paulo uma “startup de dark kitchens”. A Mimic é a terceirização total do delivery. O restaurante “aluga” sua marca para a empresa, que toca o dia a dia nas cozinhas fantasmas. Em maio, a Mimic recebeu um cheque de 13 milhões de reais de um grupo de fundos de investimento. A startup, que operava apenas uma cozinha (na Avenida Rebouças), abriu outras quatro na pandemia (Vila Mariana, Mooca, Barra Funda e Avenida Bandeirantes). “O delivery explodiu. Estamos levando 50 000 pedidos por mês”, diz o fundador, Andres Andrade, 34.

CONTRATAÇÕES (VIRTUAIS) EM ALTA

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<span class=”hidden”>–</span>Guilherme Henrique/Divulgação

O trabalho remoto, uma tendência do mundo pós-pandemia, incentiva as empresas a ter suas equipes espalhadas por diferentes cidades e países. O novo modelo promete dar embalo à Gupy, uma startup paulistana que permite recrutar pessoas de maneira totalmente digital. A tecnologia surgiu em 2015 e já ajudou a preencher mais de 200 000 vagas, mas decolou mesmo na quarentena — apesar do desemprego em alta. “Em junho, batemos nosso recorde de contratações. Foi o triplo do índice de março”, diz a cofundadora Mariana Dias, 33.

A Gupy levantou uma bolada expressiva em abril, no auge das preocupações com o vírus. Um grupo de investidores (como Oria, Valor e Maya Capital) aportou 40 milhões de reais no negócio para acelerar sua expansão. “Converso com muitas startups da cidade. Naquele momento, quase todos os investidores do mercado ‘deram para trás’ e cancelaram os desembolsos”, diz Mariana. “No nosso caso, precisamos até recusar o dinheiro de alguns fundos”, ela afirma.

A própria Gupy, com 170 funcionários (e quarenta vagas abertas), abraçou esse futuro pautado pelo home office e entregou o escritório que usava no Largo da Batata. “Enquanto não estivermos seguros, não vamos retomar o trabalho presencial”, diz a empresária.

SAÚDE PARA O GRUPO DE RISCO

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Victor, Isadora Kimura e Rodrigo Grossi, sócios da Nilo: inauguração na pandemiaVictor K Neves/Divulgação

A Nilo Saúde, uma clínica virtual para pessoas com mais de 50 anos, não somente recebeu um investimento durante a crise: a startup começou a funcionar justamente na pandemia. Por atender o grupo de risco da Covid-19, o negócio (que, formalmente, tinha sido constituído em janeiro) passou a rodar, de fato, em maio. No mês seguinte, atendeu 200 pacientes, alguns deles contaminados pelo novo coronavírus — o número de usuários deve triplicar em julho, indicam os dados das primeiras semanas do mês. “Até por questões sociais, estamos fazendo a primeira consulta de forma gratuita por enquanto. No futuro, vamos cobrar dos planos de saúde, que vão oferecer a plataforma aos pacientes dessa faixa etária”, diz o cofundador Victor Oliveira, 31. O serviço tem uma equipe médica própria, com gerontólogo, geriatra, enfermeiro e psicólogo. “A maioria dos usuários se cadastrou para evitar ir a um hospital neste período, pelo risco de contaminação”, ele afirma.

Para entrar no ar, a startup recebeu um investimento de 8 milhões de reais de fundos como Canary e Maya Capital no fim de abril. “Temos conversado com muitos investidores e percebemos que a telemedicina 100% digital será uma tendência forte”, diz Oliveira. “Mas existiam poucas startups focadas em idosos”, explica.

Entre os desafios de começar um negócio na pandemia, a Nilo precisou recrutar e treinar seus dez funcionários de maneira remota. “Montamos a empresa na base da videoconferência”, diz o empreendedor. A startup terá uma sede em Pinheiros.

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COMPREM DA CONCORRÊNCIA

Felipe (à esq.), com os sócios Rodrigo Monteiro e Thadeu, seu irmão gêmeo: loja nos JardinsDivulgação/Divulgação

Com os paulistanos trancados em casa, as vendas de ração e produtos para bichos feitas pelo aplicativo Zee.Now saltaram 80% em abril. “Eram tantas entregas que publicamos uma carta pedindo aos clientes que comprassem da concorrência”, diz o cofundador Thadeu Diz, 30. Em julho, a marca — cujo escritório principal fica em Pinheiros — recebeu um investimento de 100 milhões do fundo Tree Corp, que tem entre os maiores cotistas o empresário Roberto Justus. O dinheiro vai turbinar a expansão do app, mas parte dele será usada na loja de 600 metros quadrados que a Zee.Dog (a “marca mãe” da Zee.Now) começa a construir neste mês nos Jardins.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 22 de julho de 2020, edição nº 2696.

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“Deixou um rastro de dor”, diz paulistana que apurou casos de João de Deus

Redatora do programa Conversa com Bial, a paulistana Camila Appel, 39, é a figura principal nas apurações das denúncias de abuso sexual envolvendo João de Deus, condenado a mais de sessenta anos de prisão. Após iniciar uma pesquisa sobre o médium, em 2018, o primeiro relato de uma das vítimas a conduziu para outros casos — entre eles o de uma mulher que guardava um diário com a descrição dos crimes. “Era algo bem sabido, mas elas tinham medo de retaliação espiritual, pois acreditavam que ele tinha tanto o poder de curar como o de fazer o mal.”

O médium João de Deus durante uma cirurgia espiritual no centro espírita Casa Dom Inácio de Loyola.Mario Rodrigues/Reprodução

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Formada em administração e em antropologia, Camila viu-se envolvida na averiguação por mais de um ano, e os cursos contribuíram. “A administração me ajudou a pensar de forma mais ampla, e a antropologia é uma investigação sobre como certas culturas se estabelecem.” Ela também contou com o apoio de Pedro Bial ao lidar com as fontes. “As entrevistas são um convite a reviver o trauma, então tentei respeitar o tempo e o silêncio delas.” O resultado do trabalho está na série Em Nome de Deus, dividida em seis episódios, na Globoplay. “Fui tomada por esse assunto, mas tive a preocupação de como elas ficariam com essa exposição”, diz Camila, filha da dramaturga Leilah Assumpção. Em uma das cenas, as vítimas se reúnem pela primeira vez em uma roda de conversa. “Elas não sabiam quem estaria no encontro. A descoberta delas seria a de quem está assistindo à série”, explica. “O que mais me chocou foi ver as pessoas que chegaram a falar e não foram ouvidas pela Justiça. Ele era um homem influente e por onde passou deixou um rastro de dor.”

Roda de conversa:<br />encontro de vítimasMaurício Fidalgo/Globo/Reprodução

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Publicado em VEJA SÃO PAULO de 22 de julho de 2020, edição nº 2696.

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Os dois predinhos com o metro quadrado mais valorizado do Pacaembu

Uma raríssima exceção no Pacaembu tem a área mais valorizada no decadente bairro. O metro quadrado nos apês de dois solitários predinhos pode chegar a 10 000 reais, enquanto o das casas na mesma região atinge no máximo 7 000 reais, segundo dados do DataZAP (com sorte, são vendidos a 5 000), ou menos da metade do valor dos vizinhos Higienópolis e Perdizes. Surpreendentemente, o bairro central já exibe valores similares por metro quadrado aos do também problemático Morumbi.

O Pacaembu tinha 10 000 habitantes há trinta anos. Mas, dos anos 1990 para cá, as famílias encolheram, empregados deixaram de morar nos casarões e pelo menos 30% dos imóveis se encontram à venda ou para alugar. Hoje, o número é estimado em
4 000 habitantes. Pouco mais que o número de moradores do Copan, no Centro (o Pacaembu tem 1,2 milhão de metros quadrados, ou sessenta vezes a gleba ocupada pelo colosso de Niemeyer). A pandemia só coroou esse declínio.

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Raul Juste LoresVeja SP
Raul Juste LoresVeja SP

Em uma live no Instagram da @vejasp, o CEO do Grupo ZAP, portal de ofertas imobiliárias, deu pistas. Segundo Lucas Vargas, a procura de casas, que já estava baixa, mudou um pouco durante a quarentena. Com a possível eternização do home office para muitos profissionais liberais, livres do trânsito e de longas viagens, boa parte dos compradores está priorizando morar perto de comércio e de serviços. O que falta no Pacaembu.

O tombamento e o zoneamento do bairro, certamente defendidos por moradores de alta renda, mas que provavelmente nunca leram nada da urbanista Jane Jacobs nem do economista Ed Glaeser (que explicam, de forma clara, o mix necessário para fazer um bairro seguro e vivo), acabaram desvalorizando a área.

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Os dois predinhos podem inspirar uma alternativa aos espigões ou aos casarões desvalorizados. O primeiro surgiu a partir da junção de quatro lotes, somando um terreno de 2 880 metros quadrados. Chamado Queen Elizabeth, foi projetado em 1953 pelo engenheiro Probo Falcão Lopes e ficou pronto em 1957. Tem 35 apartamentos, de 97 a 154 metros quadrados, e seis lojas no térreo — uma delas ocupada pelo belo estúdio da designer Jacqueline Terpins. Onde poderiam existir apenas quatro casas, talvez com placas de vende-se, há 35 apartamentos confortáveis, além de comércio na rua.

O segundo, e menor, é o Edifício Flamboyant, projeto dos arquitetos Roberto Aflalo e Plínio Croce, erguido em um lote de 930 metros quadrados, que abrigaria uma única casa. Possui nove apartamentos (padrão é de 180 metros quadrados, em cinco andares).

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A dupla de predinhos solitários da rua Gustavo Teixeira: valor do m2 mais alto e raro comércio no térreo, em bairro (o sem muro nem grade é o Queen Elizabeth)Ricardo @drone.cirillo/Divulgação

Lançado em 1957, sofreu com o maremoto econômico da construção de Brasília, e sua inflação descontrolada. A obra só ficou pronta em 1967, terminada pelo engenheiro-arquiteto Lamartine Maia Rosa.

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De forma indolor, sem um muro altíssimo, como o de muitas casas vizinhas, sem um espigão que altere a fisionomia da região, os dois pequenos criaram um quarteirão com vida — e com apês mais acessíveis ao bolso do que uma casa de 900 metros quadrados.

(A coluna agradece ao oficial Jersé Rodrigues da Silva, do 2º Registro de Imóveis, e a seu funcionário, Marcelo Tadeu dos Santos, pela valiosa ajuda na pesquisa destes predinhos — eles merecem ser mais conhecidos).

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 22 de julho de 2020, edição nº 2696. 

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