Capelão do Emílio Ribas, João Mildner fala sobre fé, dor e solidão na UTI

O padre gaúcho João Mildner dá expediente todos os dias, faça chuva ou faça sol. Seu ambiente de trabalho não é uma igreja convencional. Ele atua como capelão do Hospital Emílio Ribas desde 1992. Chegou ao principal centro de referência de infectologia do Brasil justamente no auge da epidemia da aids. Deu a unção dos enfermos aos montes por dia. Hoje, no front da Covid-19, ele traça paralelo entre o momento atual e os anos 90: a solidão. Os pacientes travam suas batalhas sozinhos. Antes por abandono da família, hoje porque os parentes não podem ficar perto por haver o risco de contaminação.

Leia nesta edição: a pacificação do Executivo nas relações com o Congresso e ao Supremo, os diferentes números da Covid-19 nos estados brasileiros e novas revelações sobre o caso QueirozVEJA/VEJA

O padre que morou anos em Horizontina e conta que pegou Gisele Bündchen no colo (“trabalhei em um banco ao lado da mãe dela”) conta a sua rotina para levar fé, conforto e esperança às pessoas:

Sempre atribulada, de segunda a segunda, e com alegria de levar uma palavra de conforto a quem trava uma batalha pela vida em um dos lugares de maior vulnerabilidade na Terra: o leito de um hospital. É assim que defino minha missão como pároco do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, centro de referência em infectologia. Vindo do Rio Grande do Sul, eu comecei esse trabalho em 1992. Era o auge da epidemia da aids, quando muitas pessoas morriam e não havia o coquetel de remédios que devolveu vida e esperança aos pacientes. Para se ter uma ideia, havia dias com mais de dezoito óbitos. Eu fiz milhares de ritos de unção dos enfermos, dando uma palavra de conforto para quem está em estado de saúde grave. Embora sejam questões muito diferentes, eu vejo uma comparação clara entre a epidemia do HIV e a pandemia da Covid-19: a solidão, tão ou mais dolorosa do que muitas doenças.

Mas há uma diferença brutal entre a forma como ela ocorre. Na questão da Aids, os familiares jogavam os parentes aqui e não queriam mais saber deles. Eu vi muita gente perguntar por seus pais e irmãos, e nós não tínhamos o que falar. Tinha gente que se recuperava de enfermidades e, então, na hora da alta, descobria não ter mais para onde ir. Havia o estigma de ser o “câncer gay” e circulava muita desinformação sobre a forma de contaminação. Quantos enterros foram realizados sem ter ninguém para segurar o caixão — por preconceito e, em alguns casos, medo de se contaminar. Hoje, com a Covid, os familiares querem estar aqui com seus entes, mas por recomendação médica, todos precisam estar distantes. Há quem fique aqui mais de um mês lutando pela vida sem ver o rosto de um parente. A solidão dói, mas agora ela é obrigatória, em prol de um bem maior.

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Antes da Covid, eu fazia missa todas as segundas na capela do hospital, com a presença de médicos e pacientes, e visitava os quartos de doentes todos os dias. Tudo isso acabou. Agora, faço as minhas orações sozinho em nome dos profissionais de saúde e daqueles que lutam pela vida nas UTIs. Nunca tinha rezado tanto por colegas de saúde. Muitos médicos e enfermeiros foram afastados de suas funções, fora aqueles que em nome do trabalho estão distantes de netos e filhos. Sinto falta do olho no olho com o paciente, de segurar as mãos. Agora, rezo e peço ajuda de forma solitária. Também precisei me adaptar às novas demandas. Fiz nesse período um velório por videochamada. A família ficou confortada ao me escutar rezando durante a partida do ente querido. Temos de encontrar meios de chegar a quem precisa, não importa se dentro de uma igreja ou pelo WhatsApp. A Covid-19 nos obriga a repensar valores.

O calendário do mundo é dividido entre antes e depois de Cristo, agora também será marcado como antes e depois da Covid. Por amor, fomos obrigados a nos isolar. Tivemos de reaprender a sentir saudade e, com isso, avaliar o que de fato importa. Trabalhar muitas horas por dia preenche a alma nesse novo mundo ou queremos mais tempo para fazer lição escolar com o filho? Corremos tanto de um lado para outro para quê? Recentemente, um médico daqui relatou que um paciente chegou ao hospital já sem chances de sobrevivência porque foi orientado por seu pastor a não procurar atendimento. Para mim, trata-se de um crime. Nós, cristãos, devemos crer no Deus da vida e da misericórdia. A medicina, por essência, brota na existência Dele: ela traz esperança e vida. Orientar um fiel a não tomar medicação é crime. A ciência deve ser respeitada e enaltecida pelos religiosos. Eu chorei algumas vezes durante a pandemia. Por mais habituado que eu esteja, é impossível não ficar emocionado ao testemunhar a mais triste das cenas: um parente receber a notícia de um óbito.