Uma experiência de felicidade em família

Carregamos memórias que nasceram antes de nós. Eu nasci em 1984, tataraneta de uma mulher imigrante do Sul da Itália. Minha avó, aos 7 anos, trabalhava em troca de um prato de alimento e lembra até hoje a vontade que sentia de coisas que não podia ter. Hoje, com 83, liga quase todos os dias para uma prima, das poucas que ainda estão vivas, com 92. Elas dão gargalhadas gostosas, de dar vontade de fazer xixi. Compartilham memórias que seus corpos carregam, felizes não pela ausência de dor e dificuldades, mas pelo sentido do que viveram juntas e que as faz família, como se uma soubesse da Alma da outra, ao mesmo tempo em que se surpreendem com as novidades da vida de cada uma.

Quando as vejo, me lembro que há dois importantes caminhos para a construção da felicidade. Por um lado, depende do senso de pertencimento que a família pode oferecer. Do outro, da possibilidade de nos diferenciarmos dela e nos sentirmos livres para sermos nós mesmos. Sermos íntimos e ao mesmo tempo estranhos é a natureza das relações familiares.

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Na intimidade moram as receitas passadas de geração a geração; os trejeitos de um pai que como mágica aparecem em um filho; as dores de uma avó que se reapresentam de maneira diferente em sua neta; os almoços de domingo; as crenças e ideologias; as lutas herdadas dos ancestrais. Legados que recebemos crescendo na morada da família, e que vão deixando em nós um lastro de felicidade, por nos sentirmos pertencentes a uma história coletiva. Por meio da família, a gente vai compreendendo que é parte de um ninho, e que nele encontramos nossos iguais.

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Em contraponto, para nutrir uma experiência de felicidade em família, ser apenas igual não basta. É na família também que precisamos construir nossas asas, a partir do mosaico de informações que formarão nossa identidade e nos tornarão estranhos a quem já nos conhecia antes. Fazemos isso à medida que nos arriscamos em alçar voos na construção da individualidade. Nesse processo, afirmaremos partes de nossa cultura familiar, editaremos e renunciaremos outras. Saber que somos reconhecidos e respeitados justamente por sermos quem somos traz uma felicidade imensurável, alimentada pela sensação de autenticidade e liberdade.

Parte de toda essa jornada será feita pelo empenho da família em si, pelo esforço e investimento de afeto nas relações. Em outra parte, é a sociedade que deve oferecer espaço saudável e digno para que famílias de todos os tipos e cores possam viver seu papel e honrar suas histórias. Qualquer forma de exclusão e violência na família ou contra a família deve ser interditada, pois a coloca como um lugar avesso ao território que constrói memórias de felicidade.

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Minha avó me dá raízes em suas histórias, parece às vezes que eu mesma as vivi. E foi com a segurança de pertencimento a essa ancestralidade que meus pais me amaram e apoiaram para que eu descobrisse minhas asas. Felicidade está em voar longe, mas também em voltar para casa. Que sejamos território de comunhão e também incentivadores da liberdade de cada Ser de nossas famílias.

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Como você tem cultivado as histórias que o fazem parte de sua família? E como tem aberto as asas, com coragem, na busca de quem você é?

Tais Masi: psicóloga e terapeuta familiarArquivo pessoal/Veja SP

Tais Masi (@tais_masi), mãe do Pedro e da Melissa, é psicóloga e terapeuta familiar. É coidealizadora do podcast Diálogos sobre Família e da escola Jardim Muriqui, em São Francisco Xavier

 

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 16 de julho de 2020, edição nº 2695.