Cancelamento em massa de matrículas ameaça fechar 50% das escolas infantis

Antes da pandemia, as oito unidades da rede infantil Itatiaia (em bairros como Morumbi, Moema e Campo Belo) somavam 860 alunos, quase todos com menos de 6 anos de idade. Na contagem mais atual, 320 (ou 37%) tinham cancelado a matrícula. Entre os que sobraram, todos receberam um desconto de pelo menos 30% na mensalidade, que custa 3 500 para o período integral. Os sócios têm gastado em média 30 000 reais por mês do próprio bolso (por unidade) para evitar fechar as portas. “Nós não tivemos um colapso do sistema de saúde, mas vamos ter um colapso do ensino infantil”, diz o sócio Carlos Lavieri, 47.

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O alerta diz respeito a uma bomba-relógio que tem recebido pouca atenção. Quando o assunto é o drama financeiro decorrente da Covid-19, as escolas para crianças menores são um paciente na UTI. Duas questões colocam esses colégios no grupo de risco das falências. De acordo com a lei brasileira, os pais só têm a obrigação de matricular os filhos na educação formal a partir dos 4 anos de idade — ou seja, as famílias puderam cancelar os contratos e deixar os pequenos em casa para economizar a mensalidade. Além disso, é basicamente impossível aplicar o ensino a distância a essa faixa etária, o que tornou essas escolas menos úteis no período. “É o segmento que enfrenta as maiores dificuldades”, diz Benjamin Ribeiro da Silva, presidente do Sieeesp, o sindicato das escolas particulares de São Paulo. “Nas pesquisas com o setor, nós detectamos que a evasão nessas escolas tem sido de 30% a 50% no Estado de São Paulo”, conta. “Acredito que até 50% dos colégios que atendem apenas a crianças menores não vão sobreviver à crise”, afirma.

O prognóstico tornaria dramático algo que já é ruim: a disponibilidade de vagas para essas crianças. A fila para creches públicas na cidade de São Paulo gira em torno de 10 000 pessoas. (E, no setor educacional, é comum ouvir que o número real é significativamente maior, uma vez que muitas famílias simplesmente não procuram o serviço.) Essa carência se reflete na maior importância das escolas privadas para essa faixa de idade. No ensino médio, apenas 16% das matrículas do estado são da rede privada. Quando se recua para a faixa do fundamental, a porcentagem sobe para 20%. Na educação infantil, ela chega a 35%. Na creche, 50%. “Isso sem contar os inúmeros ‘tomadores de conta’, que prestam esse serviço na informalidade e sem a devida capacitação”, diz Silva.

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O caso dos Colégios Itatiaia, por incrível que pareça, não é dos piores — o próprio sócio admite isso. Por atender a famílias de maior renda, a marca tinha caixa para garantir o funcionamento até o fim do ano. Mas a situação piora nas escolas menores.

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Heloisa Bergamo, fundadora da Escolinha Bergamo, há trinta anos na Bela Vista.Arquivo Pessoal/Reprodução

Na Bela Vista, dos 83 alunos da Escolinha Bergamo, que funciona há trinta anos no bairro, restaram apenas doze. Desses, somente três ainda topam pagar a mensalidade integral, que varia de 400 a 1 000 reais (o valor depende do número de horas que a criança fica no local). “Estou gastando de 10 000 a 15 000 do bolso por mês para manter o funcionamento. Deixar uma escola fechar é como ver um sonho morrer”, diz a fundadora Heloisa Bergamo, 55. “Neste mês, precisei fazer uma vaquinha on-line. Ajudou, mas é uma sensação humilhante”, diz. A empresária só conseguiu abater parte do aluguel de 7 000 reais a partir de junho. Os quinze funcionários foram demitidos. “Será um desafio enorme quando o governo determinar a reabertura. Voltarei a ter os gastos de uma estrutura aberta, mas com apenas doze alunos. Muitas escolas infantis estão demitindo as equipes e vão fechar as portas”, afirma.

Marilucia Martins, sócia de Escola Ágape em Jardim D’Abril, Osasco.Arquivo Pessoal/Reprodução

Nos bairros periféricos, a situação é ainda mais complicada. A Escola Ágape, na região carente do Jardim D’Abril, em Osasco, contava apenas 29 alunos, todos abaixo de 4 anos, que pagavam até 750 reais de mensalidade. Restam apenas dez, nenhum deles pagando o valor integral. “O risco de fechar as portas é enorme”, diz a sócia Marilucia Martins, 39. “Quando o governo anunciou que as escolas só reabririam em setembro, fiz uma live com as famílias que mantêm as matrículas. Disse: ou vocês permanecem comigo, ou a escola fecha. Por enquanto, eles ficaram”, conta. A Ágape, como tantas escolas de perfil semelhante, resultou do sonho de uma amante da pedagogia. “Nunca me vi fazendo outra coisa”, diz Marilucia. “As pessoas falam que precisamos nos reinventar. Eu não quero!”, lamenta. “Meu lugar é no chão, cercada de crianças”, conclui.

 

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 15 de julho de 2020, edição nº 2695.