‘Cursed’ é Rei Arthur “teen”, mas há adaptações para todos os gostos

Há algo de fascinante na imagem de uma espada invencível emergindo das águas em mãos femininas tão delicadas quanto misteriosas. A cena descrita povoa o imaginário popular britânico há mais tempo que os próprios escritos, mas seu primeiro registro remonta ao século XII, quando os autores Geoffrey Monmouth e Chrètien de Troyes colocaram no papel as peripécias lendárias do Rei Arthur, uma simbiose duradoura entre fatos históricos e mitologia céltica. Um século depois, coube ao poeta Robert de Boron recriar o mito arturiano atando Excalibur, a espada invencível, a uma pedra, de onde apenas o rei predestinado poderia retirá-la.

Leia nesta edição: Como a pandemia ampliou o abismo entre ricos e pobres no Brasil. E mais: entrevista exclusiva com Pazuello, ministro interino da SaúdeVEJA/VEJA

De lá para cá, a história tornou-se uma das mais reproduzidas de todos os tempos, e não faltam filmes, séries ou livros sobre as aventuras de Arthur, Merlin e os Cavaleiros da Távola Redonda. Em Cursed, série que chega à Netflix nesta sexta-feira, 17, o braço no lago ganha rosto e assume o protagonismo da narrativa, adaptada da graphic novel homônima de Frank Miller e Thomas Wheeler. Katharine Langford, que despontou como estrela adolescente na pele de Hannah Baker em 13 Reasons Why, dá vida a Nimue, a dama do lago. Também conhecida como Viviane em algumas versões a história, a personagem é a mais importante sacerdotisa de Avalon – a ilha sagrada onde Arthur supostamente repousa após a “morte”. Mas é quase sempre resumida a uma mão sem rosto nas adaptações visuais da lenda. (confira entrevista com o criador da série, Tom Wheeler, e o ator Devon Terrer ao final desta reportagem)

Partindo da premissa de retratar a história desconhecida de Nimue, Cursed é mais uma versão repaginada, e com muita licença poética, da lenda medieval para o século XXI. Aqui, a dama do lago é uma jovem sem controle sobre os poderes, Arthur é um aspirante a cavaleiro de moral questionável e Merlin, um feiticeiro decadente. É provável que os admiradores da história clássica torçam o nariz para os romances adolescentes e o clima fantasioso que permeia a história, mas, para geração pautada pela diversidade, a produção acerta ao colocar as mulheres em foco e dar espaço a um Rei Arthur negro. 

Continua após a publicidade

A adaptação, porém, está longe de ser a primeira a fugir da história tradicional. Mesmo nos livros não faltam reinvenções – As Brumas de Avalon, de Zimmer Bradley, é uma das mais bem-sucedidas sagas modernas do universo arturiano, e também debruça-se sobre as mulheres na vida do rei. Em 2001, a história foi adaptada para o cinema por Uli Edel, mas o longa não é dos mais fiéis. Já nos anos 1960, as crianças deliciaram-se com o clássico A Espada era Lei, animação da Disney em que Arthur é apenas um garotinho órfão que descobre estar destinado à poderosa Excalibur e empenha-se em uma viagem repleta de aventuras e muita mágica. Anos depois, em 1998, a Warner também apostou no universo infantil com A Espada Mágica: a Lenda de Camelot, em que Kayley, filha de Sir Lionel da Távola Redonda, une-se a um jovem cego e a um bonzinho e atrapalhado dragão de duas cabeças na busca pela espada perdida para salvar Arthur e seu reino. 

Para os amantes de boas risadas, Monty Python: em Busca do Cálice Sagrado é um verdadeiro deleite. Criado pelos ingleses do grupo de comédia Monty Python, o filme usa a busca do Santo Graal como pano de fundo para uma sátira divertida da sociedade inglesa. Em 1975, seu ano de estreia, arrecadou mais que qualquer outro filme britânico nos Estados Unidos, e foi considerado uma das melhores comédias de todos os tempos pelo canal americano ABC. Seis anos depois, John Boorman arrecadou cerca de 100 milhões de dólares em valores atualizados com o sombrio Excalibur. O longa consagrou atores como Patrick Stewart, Helen Mirren e Nigel Terry e, embora as cenas sangrentas das batalhas de Arthur contra o filho Mordred não escapem da cenografia trash para os padrões atuais, há de se levar em conta os limites tecnológicos dos anos 1980.

Já nas últimas décadas, a história ganhou contornos menos místicos. Em 2004, o diretor Antoine Fuqua, famoso por Lágrimas do Sol e Dia de Treinamento, transformou a história em uma trama de ação e aventura que dividiu opiniões. Mais recentemente, em 2017, Guy Ritchie (sim, o de Sherlock Holmes) transformou Charlie Hunnam em uma versão relutante e gangster do lendário monarca em Rei Arthur: A Lenda da Espada, que também não agradou as todos. Fora dos cinemas, a série Merlin, da BBC, teve mais sucesso ao dissecar as lendas por cinco temporadas através da perspectiva do mago – a produção, que encerrou sua exibição em 2012, teve uma média de audiência de 6 milhões de espectadores por episódio na Inglaterra.

Continua após a publicidade

A narrativa de Arthur é uma montanha russa que começa em uma aventura mística medieval, embrenha-se por um enredo político de disputas de poder e assassinatos e mergulha em um misticismo quase religioso que une a busca de um cálice sagrado cheio de referências cristãs a ilhas pagãs lideradas por que cultuam a Deusa e a natureza. Talvez por isso, suas versões mais aclamadas fragmentem a história, como Merlin, ou não se levem tão a sério, como em Monty Python, extraindo o melhor da narrativa. Críticas à parte, Cursed confirma mais uma vez a versatilidade do universo arturiano, que se reinventa há séculos e encanta diferentes públicos – no fim, há Rei Arthur para todos os gostos.

Confira a entrevista com o criador da série, Tom Wheeler, e o ator Devon Terrer:

O que faz a história do Rei Arthur manter-se tão bem sucedida durante tantos anos?
Tom: Eu acho que os personagens são incríveis. Merlin é o primeiro feiticeiro que nós conhecemos. Ele é uma espécie de origem de todo uma árvore mágica em que a gente tem Gandalf, Dumbledore e vários outros. A relação do Arthur com a Espada tem paralelos em jornadas  místicas como Star Wars. Os personagens são muito fortes e transmitem uma imagem importante. De alguma forma, alguém liderando um mundo sombrio para a luz, tornando um universo bárbaros em civilizado, é algo que estamos sempre buscando porque une as pessoas. Particularmente agora, é uma ideia muito forte. E o melhor da história é que ela muda com o tempo, e se adapta ao momento. Você passa por versões me que há mais religião, ou romance e de repente muda porque é uma história viva.

Por que vocês escolheram dar a Nimue no protagonismo?
Tom: Por dois motivos. O primeiro é que quando eu e Frank Miller estávamos falando sobre fazer algo no universo do Rei Arthur, eu fiquei encantado com essa imagem de um braço feminino saindo da água e entregando a espada para o Arthur. É romantico, mágico e trágico e levanta muitas questões. Quem é ela? Por que Arthur? Qual é a relação dela com a espada? Sempre vemos a história através de Arthur ou Merlin, por que não explorar Nimue? O outro motivo é que eu cresci com esses personagens, e sempre fingi que era Arthur, Lancelot ou Merlin nas brincadeiras. QUando começamos a trabalhar na ideia, percebi que não sabia com quem a minha filha se identificava. Quais era os personagens que a representavam.

Arthur ainda não é um Rei durante a temporada. Ele é um homem comum tentando ganhar a vida. Como é dar vida a ele sabendo que é um futuro rei?
Devon: É ótimo porque os melhores personagens são aqueles que são falhos. Se ele fosse puro desde o princípio, ia ser entediante. Mas há um passado e ele é atormentado por ele. Há a relação com a família, os erros do passado. E a partir do momento em que ele se torna rei, ele é alguém que sabe perdoar. Ele entende as falhas humanas e as dificuldades. Ele toma decisões erradas para sobreviver, mas é o que ele precisava fazer no momento. Nimue é uma forma de redenção para tornar-se uma melhor pessoa e um ótimo rei. Mas ele não sabe disso, ele está apenas tentando sobreviver. E na idade média, todo mundo estava tentando sobreviver o tempo todo.

Além de uma mulher assumir o protagonismo, Arthur é negro em Cursed. Qual é importância disso para a série?
Devon: É animador porque é um mundo de fantasias. Eu sempre gostei de Senhor dos Anéis e Harry Potter, mas nunca me vi nas telas. Isso muda a narrativa. Ser parte da história é incrível e eu só quero fazer isso o mais autêntico possível. Ele é um jovem mercenário tentando encontrar o seu caminho. Eu nunca tentei dar vida ao rei, porque eu não acredito que você possa interpretar um rei em si, mas a verdade por trás dele. Eu estou animado para que todas as pessoas olhem para o mundo e vejam suas histórias acontecendo. Deveria ter acontecido há muito tempo. Se começamos a ver isso nas telas, nós começamos a falar sobre isso e é disso o que precisamos. Por que um personagem místico precisa ser branco? Eu nunca me vi em Harry Potter, mas eu olho para Star Wars e agora há rostos parecidos com o meu. É ótimo fazer parte desse progresso.

Em Cursed, os cavaleiros Paladinos Vermelhos perseguem minorias. Há algum paralelo com as discussões atuais?
Tom: Sem dúvida. É impossível não ser influenciado pelo o que está acontecendo no mundo quando você está escrevendo algo. Tolkien escreveu O Senhor dos Anéis durante a I Guerra Mundial e isso definitivamente impactou na história. A ideia do desprezo às pessoas. Seres humanos sendo expulsos de suas casas e como eles são culpados por tudo, se tornam alvos de preconceito tem paralelos com os refugiados, mas com muitas outras coisas. É importante que o mundo seja retratado de maneira diversa e inclusiva. A gente não costuma ver isso em histórias de fantasia, mas era importante para nós e acho que é importante para as pessoas se verem retratadas na história.