Fotógrafo cria tours virtuais e consegue equilibrar renda na pandemia

Reinventar-se em tempos de crise é um talento, e no momento em que o fotógrafo João Neto Pires, 37, viu a agenda de trabalho, antes recheada de festas de 15 anos, ensaios, casamentos e eventos esportivos, totalmente vazia por causa da pandemia, decidiu dar uma nova função à fotografia e empreender.

Por meio de tours virtuais em 360 graus, tecnologia usada em exibições on-line dentro de museus ou na visitação de imóveis sem sair de casa, ele lançou um projeto especial para escolas de São Paulo. Os alunos de 11 a 13 anos da Tots & Teens, em Santo Amaro, por exemplo, embarcam em uma caça ao tesouro digital na Grécia Antiga. Objetos da época histórica substituem, por meio do Photoshop, elementos da escola: uma pilastra grega está no lugar da coluna do edifício e vasos comuns disfarçam-se de cântaros. Ao clicar na imagem, a explicação sobre a peça aparece na tela. “Acho que ainda não exploramos todo o potencial do projeto”, conta Duncan Randall, diretor do colégio de ensino bilíngue. Ele também explica que a ferramenta está sendo utilizada para mostrar o espaço às famílias dos futuros estudantes, principalmente as que moram em outros países e planejam se mudar para São Paulo. “Temos 32 nacionalidades na escola. A maioria são filhos de funcionários de multinacionais que ficam na China e na Coreia do Sul, que receberam propostas de trabalho no Brasil e não fazem chamada de vídeo por causa do fuso horário”, complementa.

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DivulgaçãoDivulgação
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Pires explica que há duas formas de fazer o tour virtual. A primeira é através de uma câmera com duas lentes. Cada uma tira fotos em 180 graus, mas o resultado não traz a melhor qualidade de imagem. Por isso em seu empreendimento ele adotou uma outra, feita com uma câmera fixada em uma cabeça panorâmica num tripé que gira 360 graus. Quatro fotos são necessárias para criar a imagem completa do espaço, unidas por um software no computador. A qualidade do método possibilita ao aluno aproximar a imagem na hora do jogo. A última parte do processo é juntar todas as salas do tour, permitindo navegar entre ambientes com um clique. “Troquei assistir a filmes e séries por tutoriais de como fazer a técnica no YouTube, mas foi tão prazeroso quanto”, diz Pires, sobre sua nova fase profissional. Ele também fez um investimento em torno de 4 000 reais para começar o negócio, com a compra da cabeça e da lente panorâmica da câmera, sem contar com o equipamento que já possuía.

Para os alunos de até 6 anos da Bebê & Companhia, a mesma lógica do tour se aplica à brincadeira de esconde-esconde virtual. Pela tela do computador, os pequenos entram na brinquedoteca e precisam procurar pelos professores e funcionários atrás de portas, dentro de caixas ou embaixo de mesas. Assim como ocorreu com as peças gregas, o fotógrafo encaixou no ambiente as fotos que os educadores enviaram, fazendo poses engraçadas. “Até a secretária introvertida que detesta fotografia entrou no jogo, escondida no armário com a mãozinha de fora”, conta. Os dois filhos de João, Arthur, 2, e Nicolas, 5, estão matriculados na escolinha e, por não ter condições de pagar a mensalidade integral durante a pandemia, ele ofereceu o projeto como moeda de troca pela gratuidade da parcela.

Um tour simples, com cinco fotos em 360 graus e cinco interações, sai em torno de 1 300 reais, dependendo do ambiente. As mesmas fotografias podem ser reaproveitadas para novos jogos, com valor reduzido. O projeto fez com que a renda mensal do fotógrafo se igualasse à da época em que ele vivia de eventos. “Por ser ensino infantil, nunca trabalhamos com tecnologia. Lidamos com afetividade, toque e contato da natureza”, explica a diretora pedagógica da Bebê & Companhia, Renata Telles. Mas os pequenos sentiam saudade dos funcionários, então logo a escola abriu espaço para o fotógrafo validar a invenção. “É instrumento que aproxima os professores das crianças”, diz. “Foi uma surpresa para eles reverem um lugar pelo qual sentem carinho. Não houve nenhum retorno negativo”, concorda Duncan. Uma das alunas, Rafaela, 5, ficou animada com o passatempo. “Ela queria que eu conhecesse a escola e indicava onde brincava e guardava as atividades”, relata a mãe, Simone Reina. Responsável também pelos cuidados de um bebê de 8 meses, Simone conta que as atividades são a pausa de que precisa para focar no trabalho.

“Quando criei o jogo, eu me inspirei nos antigos almanacões, mas tinha de ser algo que as crianças conseguissem fazer sozinhas e não deixassem os pais malucos no home office”, diz Pires. As instruções são recebidas por e-mail em um PDF com um link que redireciona à plataforma, sem precisar digitar nada. “Imagina trabalhar com uma criança que te chama a todo o momento? Os pais contam que, a partir de 3 anos, os filhos conseguem acessar as atividades sem a ajuda deles”, explica Renata.

Com o plano de as escolas funcionarem parte de forma presencial, parte virtual, Pires quer trabalhar com o recurso no pós-pandemia e pretende aplicar a interatividade no mercado imobiliário e em pet shops, para estimular a adoção de animais. O negócio veio mesmo para ficar.

Publicado em VEJA SÃO PAULO de 22 de julho de 2020, edição nº 2696.

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