“Não posso voltar à Argentina porque as fronteiras estão fechadas”

“Eu morava com minha mãe e duas irmãs em Salta, cidade pequena no norte da Argentina. Lá é o oposto de São Paulo, porque não há prédios altos e a vida é pacata. Ninguém precisa acordar cedo para pegar o metrô e o comércio fecha das 14 às 17 horas para o almoço e uma soneca. Vim trabalhar em São Paulo em 2017 e, no início da quarentena, as três meninas que dividem o apartamento comigo na Barra Funda foram para a casa dos pais para passar este período com eles. Não tenho nenhum parente no Brasil e me senti ainda mais sozinha porque estou fazendo home office. Em março, estava programada a viagem da minha mãe. Ela viria me visitar, mas achou melhor desistir quando os casos do novo coronavírus começaram a aparecer aqui e lá. Não posso voltar à Argentina agora porque as fronteiras estão fechadas. Não tem como ir de carro, de ônibus, nada. Não tem passagem de avião. O único jeito seriam os chamados voos de repatriação, mas custam o dobro do preço da passagem comum. Também tenho medo de ir e, por causa da pandemia, não conseguir voltar.

O isolamento social na Argentina foi mais severo do que aqui no Brasil. Era necessário pedir aprovação até para ir a outro bairro, mas, quando acabou o período e o comércio reabriu, os argentinos não foram responsáveis. Tiveram de voltar para a quarentena e, por isso, agora não posso visitar meu país. Estou com saudade, pois não vejo minha família há dois anos. Também queria trazer de lá alfajor e chocolate. O sabor é diferente, sabe? Gostaria de comer nossa comida típica, empanadas argentinas da minha mãe. Ela está preocupada e me liga todos os dias.

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Meu interesse pelo Brasil começou no ensino médio, quando eu estudei português e uma colega me indicou a Aiesec, plataforma de programas de voluntariado em outros países. Juntei dinheiro para fazer meu intercâmbio em São Paulo. Vim pela primeira vez em 2015 e ensinei espanhol em escolas para crianças na Faria Lima e no Butantã por três meses. Eu amei o Brasil! Nunca tinha andado de trem e pude ver a praia pela primeira vez, em Santos. Pelo programa de intercâmbio, a primeira família que me recebeu foi uma mãe com seu filho, no Butantã. Eles sempre brigavam na minha frente, e eu me sentia desconfortável. Pedi a um dos organizadores da plataforma que me trocasse de casa, e fui morar com um casal de velhinhos em Franco da Rocha.

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Quando meu intercâmbio acabou, trabalhei mais uma vez em uma loja de roupas na minha cidade para juntar dinheiro. Sabia que queria arrumar um emprego fixo e morar aqui de vez. Então fiz o trâmite para conseguir o visto de residente e pedi para ficar de novo em Franco da Rocha. Eles cuidavam de mim mas eram rígidos, e eu não podia sair depois das 18 horas porque achavam tarde. Também não recebia visitas. Depois de seis meses, achei um emprego como analista de suporte bilíngue em Santana. Emprego registrado! Acordava às 4 da manhã para pegar o trem, fazer baldeação, outro trem, mais um ônibus e ainda tinha que andar um pouquinho para entrar às 7. Um dia saí para trabalhar e, enquanto descia o morro, um senhor de moto veio em minha direção, como se quisesse pegar minha bolsa. Morrendo de medo, corri e me tranquei em casa. Não deu tempo de ele levar nada. Esperei alguns minutos e vi a luz da lanterna da moto me esperando na esquina. Só tive coragem de sair ao meio-dia.

Depois disso, encontrei o apartamento na Barra Funda onde moro atualmente. Eu amo este lugar! Vou à padaria à noite, porque aqui não é cheio de regrinhas como na casa do casal. Sou abençoada, pois meu trabalho não foi afetado pela pandemia. Seria desesperador perder o emprego e ainda não ter família por perto. A imagem do Brasil na Argentina está ruim, falam que o presidente não leva o vírus a sério. É triste o que está acontecendo.”

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Publicado em VEJA SÃO PAULO de 15 de julho de 2020, edição nº 2695.